Eu indico

domingo, 3 de julho de 2011

Cisne negro

(Black swan, americano, 2010)

O artista é luz e sombra, e sua arte é resultado desse conflito que nos tortura até a exaustão. Buscamos a perfeição impossível mas desejada tão intensamente. Assim, entre Eros e Thánatos, consumimo-nos, mutilamo-nos e mutilamos a vida. Para nós, a luz e a sombra, o desejo e a morte tomam proporções mágicas, perigosas, limítrofes. Dessa forma, vivemos intensamente a vida, porque a sentimos como unha cravada na pele fria, e, ao mesmo tempo, morremos a cada segundo para dar vida à nossa obra, transformamo-nos em nossa obra. E, por mais que alguns tentem reprimir o seu cisne negro, é ele que nos impulsiona e faz de nós o que somos: artistas!

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 22 de maio de 2011

A vida durante a guerra

(Life during wartime, americano, 2009)

Cenas intencionalmente patéticas, como um menino de treze anos lamuriando-se com sua mãe, dizendo-lhe que não quer virar gay como o seu pai pedófilo, e sua mãe, séria, acalmando-o com uma frase mais ou menos assim: “Eu prometo que você não vai virar gay, meu filho”. E cenas dramáticas como quando esse mesmo menino, ao conversar a sós com o namorado de sua mãe, começa a gritar apavorado porque o homem pega em seu ombro e o abraça, isso um tempo depois de a mãe haver dito ao filho que ele devia gritar caso algum homem tocasse nele. Grito que termina com o relacionamento entre a mãe e o novo namorado.

E como não falar daquela cena em que uma mulher magra, de voz grave, com a amargura estampada no rosto marcado pela idade, aproxima-se, em um bar, do pedófilo pai do garoto de que falamos há pouco, que recentemente saiu da cadeia, e, amarga, diz ser um monstro e acaba sendo levada a pagar pela transa com esse homem!

Tudo isso em um filme ambíguo, que mostra ao público crítico os excessos em torno da questão “pedofilia”. Mas que, também, pode fazer o público ingênuo, muitas vezes burro, identificar-se com as cenas patéticas e reafirmar sua intolerância. É essa ambiguidade que faz desse filme uma obra espetacular.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 1 de maio de 2011

Flor do deserto

(Desert flower, Áustria/ Alemanha/ Reino Unido, 2009)

De repente, a vida me diz que há coisas que, simplesmente, devemos aceitar. Difícil isso para um inconformado como eu. Mas, talvez, a aceitação seja uma característica da maturidade.

E, também de repente, eu, imerso em meus probleminhas, em minhas dificuldadezinhas, em meu complexo sentir, tiro os olhos do meu próprio umbigo, paro de contemplar-me, melancólico, nas águas de Narciso, e me deparo com uma flor do deserto mutilada pela ignorância humana.

Conformar-me eu? Impossível. Aceitar aquilo que não posso mudar, uma esperança. Mas, com certeza, não devo supervalorizar a minha dor; pois, no mundo, a única certeza que temos, além da inevitável morte, é de que tudo sempre pode ser pior. E isso não é pessimismo, é a pura e dura realidade. Afinal, o mundo nunca foi um paraíso. Todos caminhamos, descalços, neste árduo deserto. E, de alguma forma, levamos conosco nossas mutilações, pois todos nós as temos. Mas cá estou eu, de novo, mergulhado nas águas de Narciso.

Voltemos os olhos para a flor mutilada do deserto e pensemos, profundamente, no significado de ser mulher em um mundo no qual, em todos os tempos, pelo que se tem notícia, a mulher é tão menosprezada e mutilada de todas as formas possíveis.

Por que, afinal, o mundo odeia tanto as mulheres?

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 27 de novembro de 2010

Ilha do medo

(Shutter island, americano, 2010)

Martin Scorsese fez um filme que, a princípio, pode até parecer muito previsível. Mas a última cena justifica todo o filme, pois ela implica em uma escolha. E ficamos com as dúvidas. Perigosas são aquelas pessoas que, por serem sensíveis demais, rejeitam a realidade ou é a maioria de nós que suportamos viver uma realidade tão crua? Afinal, todos nós, em alguma medida, não fugimos sempre da realidade? Será que aqueles que suportam a realidade são realmente os mais fortes ou, na verdade, são destituídos de humanidade? Enfim, a justiça não é uma questão de subjetividade?


Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 19 de setembro de 2010


Laranja mecânica

(A clockwork orange, britânico, 1971)

O rosto do personagem Alex, interpretado pelo expressivo Malcolm McDowell, aparece na tela. Usando o seu chapéu coco, o personagem nos olha desafiador, um olhar de desprezo que ele ostentará durante boa parte do filme. Nesse olhar, vemos a arrogância tão característica da juventude; nesse caso, representada por um rebelde sádico e cruel.

Alex e seus três comparsas vestem-se de forma igual; porém, Alex tem um diferencial, cílios postiços em um dos olhos. Ele precisa destacar-se dos outros, pois é o líder do grupo. À frente deles, na leiteria Konova, dois manequins representando mulheres, deitadas em posições opostas, ambas com um dos joelhos entre as pernas da outra. Durante todo o filme, a mulher será retratada como um objeto em um mundo masculino em que impera a violência.

O narrador se apresenta e aos seus três “drugues”: Pete, Georgie e Dim. No decorrer do filme, ouviremos palavras novas, neologismos que nos fazem lembrar as gírias tão características da juventude. O roteiro é repleto de neologismos, que vamos assimilando pelo contexto. Na leiteria Konova, Alex e seus “drugues” tentam “rassudocar” o que farão naquela noite. A leiteria serve leite com “velocete”, “sintemesque” ou “drencrom”. Segundo o narrador, esse leite “aguça e deixa você pronto para um pouco da velha ultraviolência”.

E é dessa “ultraviolência” e das tentativas frustradas de controlá-la, ou seja, da incapacidade de nossa sociedade moderna em lidar com ela, que fala Laranja mecânica, produzido e dirigido por Stanley Kubrick. O filme mostra os esforços frustrados na tentativa de conter tal violência, além de mostrar certa desesperança diante de uma juventude alienada, sem valores, sem limites e sem perspectivas. Alex não consegue se rebelar por meio das ideias, retrato de uma juventude sem ideologia, e repete os passos de um ditador inconsequente que se regozija com o poder. Alex é um modelo juvenil de ditador, que impõe seu poder pela violência e que o mantém pela crueldade.

Decidem fazer a “visita-surpresa” daquela noite, invadir uma casa, “pra rir e liberar a velha ultraviolência”. Mascarados, agridem com requintes de sadismo e crueldade um escritor e sua esposa, estupram a mulher violentamente. O poder, por meio do sexo e da violência, precisa ser reafirmado a cada momento por Alex, diante de suas vítimas e de seus “drugues”.

Alex vai para casa, tira seus cílios postiços, coloca em uma gaveta o produto de seus roubos e de outra gaveta tira uma cobra de nome Basil e decide ouvir a Nona sinfonia de Beethoven, música da qual ele mais gosta. Em seu quarto, uma pintura: uma mulher nua de pernas abertas. Basil, a cobra, desliza a própria cabeça sobre a vagina da pintura. Os elementos fálicos percorrem toda a obra, associando a violência e o autoritarismo a um mundo masculino e perverso. Como um animal, a vida de Alex se reduz ao sexo e à violência.

Por que um jovem burguês se envereda pelo caminho do crime e da violência? Tal questionamento é bem atual, em um tempo em que ainda vemos jovens bem-nascidos cometendo estupros e assassinatos apenas por diversão, retrato de uma juventude pervertida bem diferente daquela descrita no filme Juventude transviada, em que o rebelde personagem de James Dean ainda se permitia entregar-se ao afeto e à angústia. A juventude encarnada por Alex é completamente egoísta e fria, destituída de valores e insensível à dor alheia e a qualquer angústia existencial.

Alex e seus “drugues” decidem invadir um spa. É importante ressaltar que, nas invasões, Alex está sempre com uma máscara com nariz de Pinóquio, mais um símbolo fálico. Aliás, nesse lugar, há uma escultura de um pênis sobre um móvel. E é com esse pênis que Alex golpeia e mata a dona do spa, um golpe violento no rosto. O poder masculino é mais uma vez reafirmado. A mulher, que, com coragem, reagiu à invasão e tentou impor sua autoridade sobre Alex é aniquilada violentamente por um pênis, numa clara metáfora do poder masculino e a sua relação com o falo.

Porém, Alex é preso, agredido, julgado e condenado a catorze anos de prisão e levado para um presídio com disciplina militar e a rígida palavra de Deus. Pode-se reverter o mal que uma má formação moral causa a um jovem? Existirá realmente a recuperação? O Estado tenta recuperar com a rigidez e a intolerância, a Igreja com a fé e a palavra de Deus. Sem sucesso, da tutela do Estado e da Igreja, Alex passa à tutela da ciência.

Com grampos nos olhos, que o impedem de piscar, a cabeça imobilizada e usando camisa-de-força, Alex é exposto a filmes de violência e sexo, em mais de uma sessão diária, durante quinze dias, além de receber doses de uma droga em fase de teste. O resultado é que diante do sexo e da violência, a libido e a violência de Alex são refreadas pela vontade de vomitar. “Curado”, Alex consegue a liberdade.

Vemos então um processo de “purificação”, o nosso anti-herói recebe o desprezo e é punido fisicamente por todas as suas vítimas. Acaba batendo à porta do escritor a quem agrediu no passado e que o obriga a ouvir a Nona sinfonia de Beethoven, preso num quarto, já que Alex foi condicionado também, por acidente, a não suportá-la, assim como o sexo e a violência. Não é só vingança, o escritor faz parte de um grupo político que se opõe ao governo.

Ao ter contato com o sexo, a violência ou a Nona sinfonia de Beethoven, Alex sente não só vontade de vomitar, mas também de se matar. Preso no quarto, Alex sofre e grita. E acaba pulando da janela e quebrando braços e pernas. A tentativa de suicídio faz a opinião pública condenar a experiência de que Alex foi cobaia. Mas Alex entra em acordo com o ministro que comandou a sua “cura” e consegue um cargo junto ao governo, ou seja, terá novamente o poder em suas mãos.

Assim, o filme termina com Alex se imaginando em uma cena de sexo, assistida por pessoas da sociedade, que aplaudem a sua virilidade. Sua “cura” parece finalmente revertida, e o poder está de novo em suas mãos. Diante disso, o narrador diz, contrariando a ciência que o condicionou ao bem, que está finalmente curado, assumindo, assim, a sua real e cruel natureza como a sã e o condicionamento sofrido como um mal.

Laranja mecânica mostra o poder, o autoritarismo e o machismo como os elementos perversores da juventude masculina, animalizada pela violência sem controle, resultado da falta de limites e da completa inexistência de valores. Uma juventude que não sabe se impor pelas ideias, imbecilizada pela facilidade do consumo e incapaz de entender a vida em coletividade. Jovens e cruéis ditadores impondo-se pela violência, levando ao extremo a lei do mais forte. Produtos de uma sociedade doente, que, incapaz de curar a si mesma, busca soluções ineficazes e extremas para corrigir o incorrigível: uma mente pervertida e inutilizada pela ausência de valores morais.


Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 28 de agosto de 2010

Do começo ao fim

(brasileiro, 2009)

O filme começa com a seguinte citação: “Algumas pessoas olham o mundo e perguntam: Por quê? Eu penso em coisas que nunca existiram e pergunto: Por que não?” (George Bernard Shaw).

Diante dessa história, desse amor infinito, maior do que qualquer regra ou limitação social, pessoas como eu, por um momento, deixam o ceticismo de lado e acreditam na ilusão, sentem a esperança de que o amor incondicional possa ser algo real.

Quando o filme acaba, no entanto, meus olhos vermelhos pelas lágrimas olham em torno e veem a dureza característica da vida material e percebem outra realidade. É, voltei a ser uma formiga. Mas, por um momento, senti que podia ser uma cigarra.

Parece existir algo muito além, que somente às vezes algumas pessoas especiais conseguem alcançar. Durante todo o filme, pude levantar a cabeça deste mar sufocante em que estamos imersos e vislumbrar um pouco dessa luz.

Do começo ao fim é pura sensibilidade! Arte elevada à décima potência!

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 30 de maio de 2010

Lula — o filho do Brasil

(brasileiro, 2010)

Vendo o filme, de repente, sua ficha cai. O presidente veio do povo; mais, ele nasceu na miséria.

A miséria em nosso cinema, que muitos criticam, talvez porque nunca estiveram perto dela, tem muito a ver com a nossa identidade, já que a maioria de nós brasileiros não nasceu em condomínio de luxo, acreditanto que a vida é um shopping center. A miséria brasileira, enquanto elemento estético, é um cacto no deserto, contém em si a vida e a resistência, em meio à completa aridez.

O problema é que os produtores do filme se precipitaram, lançaram-no antes da hora. Deviam ter esperado o mandato do presidente acabar, para que as pessoas, como aconteceu, não confundissem um dramalhão com uma campanha política, já que as campanhas políticas adoram usar dramalhões para comover o povo. Além disso, acho que talvez o filme não tenha conseguido ser devidamente crítico, pois é complicado analisar a vida de um personagem ainda vivo.

No mais, o filme não seria nada sem a personagem D. Lindu. Mais que isso, não seria nada sem Glória Pires. Ela, junto com a personagem, são a alma do filme. Glória Pires! Cada vez que ela aparecia, eu começava a chorar. A sua personagem, D. Lindu, mãe do Lula, é, simplesmente, apaixonante. Que bom que o nosso cinema está tendo a chance de contar com uma atriz como essa. Que bom que ela não acabou se tornando apenas mais uma atriz de telenovelas, obrigada a fazer sempre um mesmo papel, adequado ao seu perfil. Glória Pires é a nossa maior estrela; depois, é claro, de Fernanda Montenegro.

Warley Matias de Souza.

Eu indico (com ressalvas)

domingo, 9 de maio de 2010


Chico Xavier

(brasileiro, 2010)

Entrei no cinema esperando ver a história de um homem e acabei assistindo à história de um santo.

Sei que a Globo Filmes faz filmes comerciais, o lucro é seu grande objetivo; o que nem sempre impede a produção de um filme de qualidade. Mas, neste caso em particular, é visível o objetivo de agradar tanto ao público espírita quanto ao público católico. É um filme com público específico, que pode desagradar àqueles que não compartilham de tais crenças.

O objetivo de santificar o homem é evidente. Se o filme fosse sobre a vida de Santo Antônio ou outro santo qualquer, seria a mesma coisa, só trocaram a história de um “santo” por outro.

No filme Bezerra de Menezes, achei que se falou mais da doutrina do que do personagem, o que muito me desagradou. Em Chico Xavier, fala-se bastante do personagem; porém, a mistura de espiritismo com catolicismo é gritante. Só faltou sugerirem que a Igreja canonizasse esse homem. O clima na sala de cinema era um clima de missa, com certa veneração mais do que respeito.

Até aqui, podem imaginar que não gosto de Chico Xavier. Muito pelo contrário, tenho uma grande admiração por esse homem, posso até dizer que sou um ateu simpatizante do kardecismo. Aliás, ninguém tem nada contra ele, a não ser alguns ignorantes e fanáticos de religiões que consideram o kardecismo como culto ao diabo; mas que, mesmo assim, não podem apontar nenhuma má ação praticada pelo Chico Xavier.

Faltou no filme algo presente em qualquer obra artística crítica, faltou conflito! Mostrar uma pessoa de carne e osso, com dúvidas, com medos, com questões.

Talvez isso ainda não seja possível, uma vez que a morte dele é relativamente recente. E, ao que tudo indica, acho que nunca será possível, já que a “beatificação” do homem parece em franco crescimento.

Mania que o povo brasileiro tem de endeusar aqueles que fazem coisas que a maioria dos homens é capaz, mas não tem nenhum interesse em fazer. É uma forma de isentar-se da responsabilidade. Haverá sempre o argumento: “Não posso fazer isso porque não sou santo”.

Chico Xavier também não foi e não é santo, e acho que ele concordaria comigo. Não estou dizendo que ele fosse um pecador, não é isso, estou dizendo que os homens superiores não se sentem superiores e que os santos são ficções da Igreja. Pois ele fez o que todo homem pode fazer se quiser. O altruísmo é uma escolha, que muita gente não faz, mas que também não reconhece que não fez.

Espero que parte da renda do filme esteja sendo destinada para a caridade, como gostaria Chico Xavier; pois só assim o filme se justifica.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Segredos do porão

(brasileiro, 2008)

Não posso evitar, o meu senso crítico é maior do que o meu patriotismo. O roteiro é fraco; em alguns momentos, ingênuo. No entanto, apesar de ser uma produção independente e de baixo custo, o filme é de qualidade.

Há cenas que nos dão aquela certeza de que aquilo é cinema, cinemão mesmo! Mas dá vontade de cortar, tirar aquelas cenas que ficaram ruins, deixar só as boas. O movimento de câmera é bem interessante, os efeitos e as cores também. Tecnicamente, de boa qualidade. As atuações, com uma ou outra ressalva, são boas, há mesmo uma ou outra espetacular. A direção parece tocada de sensibilidade.

Esse filme é mesmo assim, ele consegue agradar e desagradar ao mesmo tempo, não temos escolha. Você nunca vai conseguir dizer que é uma porcaria. Mas também não vai conseguir dizer que é magnífico. O fato é que ele tem algo, o fato é que a arte transita por ele. Além disso, ele é especial, pois é uma produção barata de qualidade.

Acho que é muito mineiro essa tendência de ser severo com o que é nosso. O filme é da terra, o primeiro longa-metragem produzido em Sete Lagoas, feito com mais coragem do que recursos financeiros. Vê-lo sabendo de tudo isso engrandece o filme. Ainda assim, fui vê-lo procurando defeitos; somos severos demais com os filhos da terra. Mas o filme me surpreendeu; além dos defeitos, encontrei muitas qualidades.

Segredos do porão foi exibido aqui no cinema da cidade, no auditório da Reitoria da UFMG (Projeto Cine 0800) e deve ter percorrido também alguns outros espaços. E agora está em DVD. E isso é fantástico, quando sabemos que a distribuição de filmes nacionais no Brasil é algo difícil de fazer, até os grandes produtores têm dificuldade.

Não há como não sentir admiração e orgulho daqueles que participaram desse trabalho. Fazer cinema no Brasil é difícil. Fazer arte aqui é difícil. E, apesar das ressalvas, acho que vale muito a pena conferir. Aliás, sempre vale a pena conferir qualquer produção nacional. E também vale a pena acessar o site do filme: http://www.capucci.com.br/.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 30 de janeiro de 2010

Calígula

(ítalo-americano, 1979)

Ousadia é o adjetivo que melhor caracteriza esse filme. Imagino o quanto as pessoas da época ficaram chocadas no lançamento, pois ainda hoje ele consegue chocar muita gente.

Que obra fantástica! Tendo entre o seu elenco atores reconhecidos mundialmente, atores consagrados, como Malcolm McDowell e Peter O’Toole, Calígula ousa misturar a arte com a pornografia, se é que as duas são, necessariamente, dissociáveis. E a pornografia dá ao filme o tom realista que o impede de ser considerado mais uma daquelas histórias cansativas sobre o império romano.

Os atores consagrados que mencionei não participam do sexo explícito, reservado a outros atores e atrizes que, imagino, vieram do cinema pornográfico da época; mas que, no entanto, foram imortalizados por esse clássico do cinema mundial. Finalmente esses atores e atrizes puderam fazer algo além de apenas “entreter” homens e mulheres em busca de emoção.

Numa discussão, anos atrás, certa pessoa, intolerante e de horizontes menos vastos, dizia que pornografia e arte não se misturam, ou é uma coisa ou é outra, quando eu comentava o filme francês Romance X, ao qual, aliás, a pessoa referida nem havia assistido. De qualquer forma, quero vê-la sustentar sua visão curta diante de um filme consagrado como esse, incontestavelmente artístico.

Quando digo que há pornografia no filme, é porque é pornografia mesmo, com pênis eretos ejaculando, masturbações masculinas e femininas, sexo oral, além de muito sangue e dor. Pois Calígula seria um presente para os psiquiatras do século XIX, já que reunia em si todas as perversões possíveis e inimagináveis. Um louco esse Caio Calígula, que, se não me engano, entre 37 e 41 d. C., comandou, tirana e tresloucadamente, a Roma pagã, vivendo uma história incestuosa com sua irmã, cometendo os excessos do poder, enlouquecido, atribuindo-se o status de deus, cercado de gozo e dor, fascinado pela morte, em meio à tragédia e à animalidade.

É interessante pensar que o lugar onde houve tanta luxúria e excessos, hoje é o símbolo da fé cristã, da luta contra o pecado. O mundo dá muitas voltas mesmo. Não consigo nem imaginar como será Roma daqui a 2.000 anos.

Ainda bem que tudo é mutável, apesar de alguns acreditarem que o poder pode ser eterno; afinal, ainda existem muitos loucos por aí.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 31 de outubro de 2009

Salve geral


(brasileiro, 2009)

Fui ao cinema ver este filme, e ele mexeu comigo. É sempre bom quando as pessoas mostram o outro lado da história; pois, infelizmente, há sempre um lado que sobressai ao outro, e esse lado sobressalente é sempre aquele que pretende manter a ordem, ou seja, a ignorância.

Em 2006, quando aquela onda de crimes assolou São Paulo, em que policiais foram mortos nas ruas, em que ouvimos falar em um tal de PCC, em que a imprensa brasileira ficou “eufórica”, divulgando tanto crime e horror, em que São Paulo parou. Aliás, uma das melhores cenas do filme é quando Andréa Beltrão atravessa uma faixa de pedestres na cidade de São Paulo, em uma rua ou avenida deserta. Como não conheço a cidade, não sei que rua ou avenida é aquela, mas pode bem ser uma rua ou avenida famosa da cidade, para dar aquele impacto.

Mas, em 2006, ficamos chocados com a “onda de violência” e temerosos de que os presos se revoltassem também em outros estados, que a guerra fosse declarada enfim. E a imprensa mostrava os mortos, pessoas de bem etc. e comovia a população; pois em nosso país, o maior apelo é o emocional, a razão é posta em segundo plano, infelizmente.

É claro que todas aquelas vítimas merecem homenagens e respeito. Mas há outras vítimas que deviam ser mencionadas, a população carcerária de nosso país. Estou cansado de ouvir alguns (ou tantos) imbecis dizendo que a Comissão para os Direitos Humanos só defende bandido. Acho que o dever da Comissão é defender “humanos”, independente de quem sejam, não é mesmo? E se esses “bandidos” estão sendo alvo da preocupação da Comissão para Direitos Humanos é porque, gritantemente, seus direitos não estão sendo respeitados. Os humanos encarcerados, em nosso país, vivem como bichos. Choca quando vemos um bando de homens amontoados em uma cela fétida, suja, precária, jogados ali, alvo da violência do Estado, da sociedade e de seus colegas de cela, que só conhecem a lei da selva.

A nossa sociedade quer tanto provar que aquelas pessoas são más, que acabam transformando-as em vítimas, dada a crueldade com que nossa sociedade trata essas pessoas que se desviaram do “caminho certo”, como diria um moralista igual a tantos que infestam a nossa sociedade.

Então, surge esse tal de PCC, o “Partido”, apontado como uma “facção criminosa”, e deflagra a “revolução”. Algo inevitável, já que o sistema carcerário, em nosso país, é um barril de pólvora. Tudo só pode dar em merda mesmo.

E vão tapando o sol com a peneira. E cada dia fica pior. Agora, novamente, a imprensa coloca o foco sobre a guerra entre traficantes e entre traficantes e a polícia, no Rio de Janeiro. O nosso país, em relação à segurança, está um caos. E não adianta o pré-sal, não adianta a economia estar forte, não adianta ser um país “em desenvolvimento”, não adianta nosso presidente ser “o cara”, tudo isso vai por terra, se a violência não for contida, e isso não se faz amontoando pessoas como se elas fossem coisas sem valor, como se fossem pedaços de carne podre.

Como solucionar o problema? Dinheiro neste país é o que não falta. Falta aquilo que é contrário ao caos: organização. E, além disso, falta competência, falta planejamento, falta interesse, falta comprometimento. Acho que projetos não faltam. Mas ninguém está interessado em executar projetos, dá trabalho demais, é mais fácil dizer que bandido merece morrer, que merece sofrer etc., até o caldo entornar, e todo mundo virar bandido, assassinos que matam para sobreviver. Pobres de nossos filhos, que pagarão o preço pela venda que insistimos em manter sobre os nossos olhos.

E onde está a Justiça brasileira que permite que homens vivam amontoados em pequenas celas? A Justiça só está na figura imponente de magistrados, a maioria fruto dessa classe média burra, que acha que um título de juiz é status. Como posso acreditar na Justiça brasileira se as pessoas sob a tutela do Estado são tratadas como animais? Aliás, pior do que animais, pois a Sociedade Protetora dos Animais, em nosso país, é mais respeitada do que a Comissão para os Direitos Humanos. E não quero dizer que não deva ser respeitada, deve sim e muito, pois nenhum animal merece ser maltratado, nem mesmo o “bicho homem”.

E como nossa sociedade se julga no direito de dizer que é melhor que os bandidos se é tão cruel quanto o assassino mais sádico? Aliás, até esse assassino mais sádico, infelizmente, faz parte da sociedade. Somos responsáveis por tudo isso, queiramos ou não, fazemos parte dessa coletividade.

Aliás, vendo o filme O guerreiro Genghis Khan (título original: Mongol), acabei pensando um pouco na questão da crueldade. Por que existe o orgasmo? Para que sejamos levados a buscar o prazer sexual e assim procriarmos. Vendo as condições de vida do século XII, retratadas no filme, pensei que o prazer do sádico, ou seja, o que leva à crueldade é justamente um motivo para que o homem possa matar e sobreviver, o sádico é um primitivo. Portanto, imagino que, caso um dia evoluamos realmente, não haverá mais crueldade porque não haverá mais luta pela sobrevivência e não haverá mais o sexo, como o conhecemos, pois não haverá mais necessidade de procriação, a tecnologia fará esse papel por nós. Quem sabe então seremos menos animais e mais humanos.

Às vezes fico pensando em como seria uma sociedade sem Estado e sem religiões, portanto, sem família. Acho que isso é evolução, apesar das cabecinhas pequenas, e são tantas!, não conseguirem compreender isso, afinal, “tá dominado, tá tudo dominado”. Nem sei se poderia chamar essa nova realidade de “sociedade”, pois o homem descobriria, enfim, sua verdadeira liberdade, sua individualidade, sem ilusões criadas por uma sociedade que quer manter a sua fonte de riqueza, a família, uma sociedade que criou uma coisa chamada “solidão”, para dar aos seus “dominados” a ilusória sensação de que a “família” eliminaria o vazio de sua existência.

De uma sociedade tão perversa, só podemos esperar a crueldade e a violência, oficializada e legalizada, que o Estado impinge sobre esses homens, e sobre as mulheres também, pois os presídios femininos existem; mas parece que a violência masculina sempre foi e é mais gritante, crua, menos sutil, portanto, menos “controlável”.

E quem dera este meu texto pudesse solucionar todos os problemas. Ele só vai provocar a revolta de alguns, aqueles que lucram com o caos, e a incompreensão da grande maioria, pois a ignorância é a maior forma de controle.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

Dúvida

(Doubt, americano, 2008)

Não é mais preciso prestar homenagens a Meryl Streep, ela é sensacional, não há como ser original ao opinar sobre ela. E a personagem que ela interpreta nesse filme é espetacular, fascinante. Mas, sinceramente, o que mais impressiona nesse filme é o roteiro. O título, tão sucinto, diz tudo. E essa “dúvida” acompanha-nos todo o momento. Cada frase dos personagens te traz a dúvida. Você todo o tempo se pergunta: “O que ele quis dizer, realmente, com isso?”.

Deu inveja, queria escrever um roteiro assim. E não dessas ridículas “invejas boas”, discurso de moralistas hipócritas. Não! É daquela inveja mais corrosiva mesmo, a verdadeira, aquela que surge somente quando o invejado é espetacular. Que vontade de queimar o roteiro e escrever outro, ainda melhor! Claro que isso é impossível, não há como pôr em dúvida a qualidade dessa obra.

É fascinante quando alguém joga na cara das pessoas que a dúvida é bem mais real do que a fé.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 23 de agosto de 2009

Milk

(americano, 2008)

Num tempo em que a Parada do Orgulho Gay era mais do que uma marcha de alienados em busca de prazer, Harvey Milk lutou para que os gays não perdessem seus direitos civis, uma luta contra conservadores religiosos que usavam Deus para justificar sua ignorância.

Devemos render homenagens ao movimento gay do passado e também do presente. Se hoje podemos falar e vivenciar, com alguma liberdade, o nosso desejo, é a todas essas pessoas que fizeram e fazem parte desse movimento que devemos isso.

E a esses pobres infelizes que vivem enrustidos, com medo e com vergonha de si mesmos, saibam que pessoas foram presas, espancadas, humilhadas, que choraram, sofreram e morreram para que vocês pudessem usufruir de um direito que lhes pertence, o direito de amar e desejar.

E quanto ao conservadorismo das religiões, não devemos permitir que usem a palavra de Deus para dominar e oprimir as pessoas. Não sejam cordeiros! Sejam cidadãos conscientes, pessoas pensantes e independentes. Contra a fé burra, alimentem sempre a razão. E não permitam que o moralismo insano acabe com a esperança.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

O leitor

(The reader, EUA/ Alemanha, 2008)

Aquela lembrança do adolescente que eu não mais sou. Essa sensação de que só na adolescência nós experimentamos, verdadeiramente, a vida. É como se a infância fosse a preparação para o auge das sensações e a idade adulta um distanciamento da vida. Deu vontade de sentir de novo aquele meu corpo pulsando de medo, de sonhos, de desejo, de tesão, de amor, de raiva, de dor, de encantamento e de horror. Ali eu era realmente homem, porque ali eu era sensação, porque ali eu era realmente animal. Mas, na arte como na vida, a explosão sensorial foi substituída pela angústia e a busca de sentido. E tudo pareceu bem mais complicado do que apenas sentir e reagir. Pois somos tão maravilhosamente complexos. Não somos mal ou bem, somos pessoas, inebriadas de sentimentos e sensações, apenas pessoas, complexas, fragmentadas, ambíguas. Não somos vilões e nem mocinhos, somos pessoas.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 20 de junho de 2009

O corajoso ratinho Despereaux

(The tale of Despereaux, EUA/ Reino Unido, 2008)

Uma ratazana que não era igual a todas as ratazanas. Um rato que não era igual a todos os ratos. Uma criada que queria ser princesa. E uma sociedade que elimina aqueles que pensam diferente. Alguém já viu essa história? É a história da sociedade em que você vive. Se você é só mais um, talvez não a reconheça, pois faz tanto parte dela que não consegue ver o quão daninha ela é. Você é um dominado, totalmente controlado, um cordeirinho obediente desse sistema, que, de tão perverso, não mostra a cara, não tem nome, é genericamente chamado de “sistema”. Mas não se iluda, não queira ser a princesa que essa sociedade fútil te vende. Saiba que não é a beleza ou o dinheiro que te faz diferente ou especial, é o que você pensa, é o seu conhecimento, é o seu senso crítico, que permite que você veja que a vida é muito mais do que seguir uma rotina e consumir. Leia! Leia muito. Do contrário, será apenas mais uma ratazana que vive como uma ratazana, ou um rato que vive como um rato, ou uma criada que sonha ser uma princesa. Seja mais que isso.
Warley Matias de Souza.

Eu indico

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A máquina


(brasileiro, 2006)

Já de cara vou dizendo que tenho birra com a Mariana Ximenes. É pura birra mesmo, coisa inexplicável. Tenho a sensação de que ela faz sempre o mesmo papel; apesar de ser uma atriz talentosíssima. Portanto, quando o filme foi anunciado para os cinemas, torci o nariz. Pois não é que a Mariana Ximenes abalou um pouquinho da minha birra? Mas um pouquinho só.

O filme é da Globo Filmes e segue a receita das comédias românticas com sotaque nordestino. O ator principal, Gustavo Falcão, está maravilhoso. Mas, durante todo o filme, fiquei com a impressão de que aquele papel era o tamanho certinho do Mateus Nastchergale. Aliás, o Mateus faz qualquer papel com a perfeição possível dos grandes artistas. Acho que esse papel só não foi entregue a ele porque ele não tem o perfil de galã.

Uma cidadezinha fictícia, chamada Nordestina. Um cenário lindo, visivelmente cenário, quero dizer, artesanal, pelo menos em aparência, arte pura. Nesse cenário, a personagem de Mariana Ximenes (com sotaque!), acho que é Karina o nome dela, quer ganhar o mundo. (A mocinha sonhadora, que todo mundo conhece.) O personagem do Gustavo Falcão (não é que me esqueci do nome!) não quer sair de Nordestina; mas ama Karina, e, por isso, vai buscar o mundo para ela. Propõe, em rede nacional, viajar cinquenta anos para o futuro ou morrer estraçalhado por uma máquina com lâminas cortantes. Tudo isso para trazer “o mundo” para Karina.

O filme é poesia pura, humano pra caralho, com uma trilha sonora gostosa que “só veno!”. E tem a excelente presença de Paulo Autran, que dispensa comentários.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 22 de março de 2009

Mandela — Luta pela liberdade

(Goodbye, Bafana, Alemanha/ França/ Bélgica/ África do Sul/ Itália/ Luxemburgo/ Reino Unido, 2007)

Como podem ver, o título original não tem muito a ver com o título brasileiro. A sensação que tenho é de que a pessoa responsável por essas traduções apenas lê a sinopse e, guiada por achismos, coloca o título que quer. O título original diz muito mais do filme, de sua essência. O título brasileiro dá a sensação de que vão contar a vida de Nelson Mandela, esse personagem tão forte e admirável. Mas não, o personagem vivido pelo monumental Joseph Fiennes é que é o centro desse filme. Um filme que nos faz pensar em algo que, infelizmente, encontramos em poucas pessoas: a força de caráter.

Para alguns, o conflito é grande quando nos vemos forçados a viver, ou melhor, sobreviver segundo as normas vigentes. E normas sempre há, essa força invisível que nos ordena todo o momento que façamos a coisa certa, ou seja, que obedeçamos. É a força de caráter que nos faz arriscar tudo e seguir conforme o bom senso, não o bom senso dos covardes, mas o bom senso absoluto, aquele que vê não o que interessa, mas o que é. Nessa luta entre o egoísmo e a razão, a sua origem fala mais forte, pois caráter é moldado na origem, é uma herança valiosa que os pais podem e devem legar a seus filhos.

Caráter. Goodbye, Bafana fala de caráter. Aquilo que lhe dá força para continuar apesar das perdas, apesar das injustiças. Todos nós temos uma escolha: viver uma vida medíocre e covarde ou posicionar-se diante dela e resistir. Os covardes não podem entender isso. Mas as pessoas de caráter, sim.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 1 de março de 2009

Capote

(americano, 2005)

Oscar de melhor ator merecidamente entregue a Philip Seymour Hoffman. Não sou especialista em arte dramática; mas creio que o adequado seria dizer que esse ator apresentou técnicas perfeitas de expressão corporal. Quem conheceu o Truman Capote diz que o Philip Seymour Hoffman ficou igualzinho ao original. Eu tive de me contentar em ver o Truman Capote numa gravação antiga que fez parte do making of. Realmente, está idêntico.

Capote conta o processo de criação do livro A sangue frio de Truman Capote, escritor americano, declaradamente homossexual, autor de Bonequinha de luxo, que, aliás, é um clássico do cinema.

Em 14 de abril de 1959, quatro membros de uma família do interior, no Sul dos Estados Unidos, foram assassinados. Truman Capote vai fazer uma reportagem sobre o caso e acaba decidindo escrever um livro, A sangue frio, que conta a história de um dos assassinos. O desfecho da história ocorre em 1965, quando os dois assassinos são executados: enforcados.

Com o livro A sangue frio, Truman Capote pretende revolucionar o mundo literário americano da época com um romance de não-ficção. Fato é que Capote fica obcecado por escrever essa obra. Para isso, acaba tendo uma relação homoerótica com um dos assassinos com quem se identifica no momento em que este começa a relatar-lhe sua história. E assim, Capote mantém os condenados à morte vivos por cinco anos, conseguindo advogados para recorrer e recorrer... Mas chega o momento dramático em que o escritor precisa de um final para o seu livro. E esse final só será possível com a execução dos assassinos.

A sangue frio foi o último livro terminado pelo escritor, que morreu quase 20 anos depois, em 1984, vítima do alcoolismo.

Por mais que eu escreva, não conseguirei mostrar a genialidade do filme. Sutileza talvez seja a palavra para definir esse filme. Mas sutileza acaba sendo uma palavra para definir todos os bons filmes. Então, eu me calo.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Desejo e reparação

(Atonement, britânico, 2007)

Ao final do filme, veio-me à mente a resposta para uma pergunta. Entendam, a resposta veio antes da pergunta. E a pergunta é: “O que faz um escritor?”. E eis a resposta: “Ele cria ilusões”. O motivo e a importância de criar ilusões não cabe a mim esclarecer.

Desejo e reparação fez-me chorar, pensar, desejar e odiar. Só um filme britânico sabe fazer isso. Só atores britânicos (arriscando-me a ser injusto com algum ator estrangeiro porventura parte do elenco) sabem fazer isso. A sutileza é sua marca. Com ela, a intensidade da ilusão, os olhos azuis da realidade, o orgasmo contido por trás de uma paixão.

Senti-me vivo, senti-me intensamente criador, deus partícipe desta ilusão: a vida.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mamma mia !

(Inglaterra, EUA, Alemanha, 2008)

Se nunca gostou do Abba, esqueça, esse filme não é para você. Porque o filme só existe em função do Abba, é um grande e belíssimo videoclipe. A sensação que temos é de que o(a) roteirista é fanático(a) por Abba. Consequentemente, nós que nos arrepiamos com cada uh-uh desse grupo, também amamos o filme. Um filme alegre, divertido, emocionante, com boys lindos e girls espetaculares (deuses gregos e afrodites). Com Meryl Streep, que seria boa até fazendo um papel secundário em novela mexicana. Meryl canta? Não sei, acho que não. E ela não precisa. Ela sempre será a dancing queen de qualquer baile, sempre. O filme tem aquela profundidade cinza cor-de-rosa do Abba, profundidade disfarçada de superficialidade, isso é Abba. Mamma mia! Meu filme cinza cor-de-rosa, meu filme cor-de-rosa cinza.
Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 4 de janeiro de 2009

Espíritos


(Shutter, tailandês, 2004)

Essa produção tailandesa passou nos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2006. Um dia desses, sem muitas opções nas telas, eu quase assisti. Mas não o fiz. Agora, resolvi conferir em DVD.

O primeiro motivo que me levou a assistir a esse filme foi o fato de ele ser TAILANDÊS. Filmes de terror que chegam aos cinemas brasileiros, normalmente, são americanos. Nem os filmes do Zé do Caixão, que, dizem, é muito respeitado no exterior, que fez e faz filmes de terror brasileiros, quase nenhum brasileiro conhece. Eu mesmo só vejo cenas isoladas quando o pobre-diabo, ou melhor, o Zé do Caixão é entrevistado. O segundo motivo foi o fato de que, pensei, o filme explorasse o mistério de supostos espíritos “documentados” em várias fotografias em todo o mundo; mas não foi bem assim.

No início, fiquei decepcionado. Parecia uma historinha boba. Por um momento, eu havia esquecido que a simplicidade é tudo, não só em arte como também em outras áreas da vida. E o filme foi me envolvendo... Cenas interessantes. Original? Não, de forma alguma, todo mundo sabe que originalidade não existe. Mas ele tem algo diferente.

Acabei concluindo que, mais do que uma história de terror com boas interpretações, é um filme que, com a simplicidade tailandesa, fala do amor traído, do limite entre o amor e o ódio, da obsessão, do desejo de vingança que nos acomete quando somos rejeitados... Ou seja, o filme é bem humano.

Não é uma super produção nos moldes americanos. Mas é um filme Super. E parece que outros filmes tailandeses foram ou estão sendo feitos na mesma linha. Ou seja, começou a banalização. Mas é assim mesmo. Acho que isso nós brasileiros não fazemos ainda, o ato de banalização do cinema, a repetição de fórmulas. Aliás, minto. Começamos a fazer isso sim. A “indústria” do cinema vem crescendo e, com isso, a banalização é inevitável. Mas a banalização é muito bem-vinda; pois, no rastro dela, muitas produções maravilhosas vão alcançando visibilidade. Afinal, todo show merece um mestre-de-cerimônias. As estrelas chegam sempre depois.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 21 de dezembro de 2008

21 gramas


(americano, 2003)

Acho que o grande segredo do filme é a ótima edição. Atuações intensas. Dor latente que de repente explode. “A vida continua”, mas, depois de grandes dores, “não continua da mesma forma”. Benicio del Toro, Shean Penn e a pergunta: “Quanto pesa uma vida?”.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 23 de novembro de 2008

Elza & Fred

(Espanha/ Argentina, 2005)

Você olha para as estantes da locadora e descobre que já viu todos os lançamentos e que os lançamentos que ainda não viu não te interessam nem um pouco. Então, você começa a caminhar, indo lá para o fundo, num lugar escondido onde estão os melhores filmes do mundo; mas que ninguém quer ver. Porque, na maioria das vezes, as pessoas usam o cinema para esquecer a vida e não para refletir sobre ela. Mas eu não tenho medo de encarar a vida de frente. Com meu feeling para filmes, escolho este e aquele. E, entre eles, estava Elza & Fred.

São poucos os filmes que falam da velhice, é outra coisa da qual as pessoas querem fugir, até mesmo os velhos. Vivemos numa época em que fugimos de tudo, em que a ilusão vale ouro. Mas eu encarei Elza & Fred, na altura dos meus trinta e poucos anos, e chorei, não por eles, mas por mim. Aquela sensação de que o tempo está passando e de que estou perdendo, perdendo qualquer coisa que não sei bem o que é, talvez quem sabe a felicidade. Pois, a cada dia, nós perdemos, mas também ganhamos. Entretanto, o medo das perdas é tão grande, que os ganhos não passam de pequenos prêmios guardados numa gaveta.

Chorei e sorri com esses dois personagens tão encantadores e tão assustadores, pois me mostram o meu provável e temido caminho. Que vontade de não perder mais, de valorizar os ganhos, de viver com gozo a vida. E por que não vivo então? Pergunta difícil. A resposta é ainda mais difícil. Prefiro refugiar-me na ilusão. Prefiro imaginar que um dia eu beijei um Marcello Mastroianni muito jovem, com sua pele tão lisa, efeito do cinema em preto-e-branco. Prefiro pensar que fui o amante mais amado do Marcello e ter saudade de algo que não vivi, simplesmente porque eu disse “não” à vida.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 12 de outubro de 2008

O exorcismo de Emily Rose

(americano, 2005)

Inspirado em fatos reais. Com todas aquelas clássicas cenas de possessão. O corpo da vítima sendo destruído violentamente, e, aos poucos, alterações na voz, vários “demônios” falando línguas supostamente desconhecidas pelo possuído. Mas o mais interessante é que O exorcismo de Emily Rose lança a discussão em torno da possessão. O padre que faz o exorcismo é julgado por isso. Nesse momento, não é possível deixar de pensar no limite entre a crença e a ciência. E o que é mais interessante, todos os lados têm explicações “possíveis” para o que ocorreu; mas nunca se pode falar em certezas. E seja você ateu, agnóstico, católico, espírita, evangélico ou sei lá mais o quê, se você pensa, é impossível deixar de reconhecer que não há respostas para tudo, não há segurança em nossas crenças, ideologias ou ciências. E você pode apenas concluir que tudo é “possível” e que você também está sujeito a tudo isso.

Não posso deixar de mencionar o fato de que o ator Campbell Scott está entre o elenco. Adoro esse ator; não só por motivos artísticos... mas por vários outros, inconfessáveis. Mas não estamos aqui para falar de minhas fantasias. Campbell é um ator de primeira, independente de qualquer coisa.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 14 de setembro de 2008

Plata quemada

(Espanha/França/Argentina/Uruguai, 2000)

O amor bandido é aquele que nasce e se cria na adversidade. O carinho e a violência se misturam num equilíbrio que seria perfeito se pudéssemos compreender essa relação que dizemos ser doentia, mas somos profundamente ignorantes em relação ao mais profundo da alma humana. O amor bandido é intenso porque a paixão pertence aos seres que se entregam à carne, sem medo, alheios a tudo que não é palpável. Por isso, o suor está tão presente, a saliva, o esperma, o sangue, a dor está tão presente.

Plata quemada conta a história de Nene e Ángel, dois homens apaixonados, dois lindos bandidos. O filme tem origem no livro de mesmo nome escrito por Ricardo Piglia. Ainda não li o livro, o que me impede de fazer comentários idiotas como “O livro é bem melhor”. Posso dizer que o filme é muito bom, é intenso. Ricardo Piglia baseou-se numa história real acontecida em 1965. Naquele ano, “los mellizos” viviam intensos momentos de sua violenta paixão, em meio a vozes, carícias sinceras, desejo e sangue.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

Uma onda no ar

(brasileiro, 2002)

Esse filme foi lançado na mesma época em que estavam em evidência filmes como Cidade de Deus e Carandiru. Talvez incomode porque carrega ideologia num tempo em que não temos mais ideologia.

Acabei incomodado com uma cena. Os heróis do filme, tão politicamente corretos, roubando banana de um vendedor gay? Teria uma marca de homofobia no ar? Não sei. Mas não é desse preconceito que o filme fala, é de outro: o preconceito contra o negro pobre. O filme grita que no Brasil há racismo! Acho que só um negro pobre sabe que neste nosso país realmente existe racismo, existe segregação. Só não sabe disso a elite que é totalmente alienada com relação ao lado negro de nossa sociedade (não vai aqui nenhum trocadilho de mau gosto).

Uma imperfeição. Algumas falas não estavam muito bem ambientadas. Sem preconceito e sem querer ofender, é estranho ouvir um mineiro pobre e ignorante dizendo: “Fique conosco para cuidarmos de você”. Não vão encontrar essa fala no filme, encontrarão coisas semelhantes. Mas é algo sem muita importância. Afinal, nossa língua é tão flexível (outra vez, sem segundas intenções).

Deve ser um filme interessante visto por olhos de um sociólogo. Mas, artisticamente, também é uma bela obra.

Warley Matias de Souza.

Eu não indico

domingo, 7 de setembro de 2008

Valiant

(animação, britânico, 2006)

Após a Segunda Grande Guerra Mundial, 31 pombos foram condecorados por serviços prestados à pátria. Isso é real.

Indo para a ficção:

De um lado, falcões nazistas. Do outro, pombos aliados. Os pombos precisam levar uma mensagem secreta. Os falcões querem interceptar a mensagem. Valiant é um pombinho mirrado, de asas curtas, que quer servir a pátria; é o herói do filme.

O filme mistura o bom humor inglês ao grotesco humor americano. Valiant é um herói sem expressão. Mas, no som original, pode-se ouvir a bela voz de Ian MacGregor.

Um filme que trás conceitos ultrapassados como: “É meu dever morrer pela pátria!”. E sem nenhuma intenção de problematizar tal questão.

As pombinhas são retratadas como seres belos e sedutores, nada mais. É um filme falocentrista.

O personagem Pomposo é um pombo britânico, afetado, de pince-nez. E o engraçado, ou trágico, é que sua afetação e gosto pela leitura caminham juntos; como se para ser forte fosse preciso ser burro; como se para ser homem não fosse possível ser delicado.

O melhor do filme é uma pequena participação de dois ratos franceses e um trechinho de uma música cantada por Edith Piaf.

Adoro animação. Mas dessa eu não gostei.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 13 de julho de 2008

Zuzu Angel

(brasileiro, 2006)

Todo filme alvo de muita propaganda gera em nós expectativas bem maiores do que a que deveríamos ter. Assim é Zuzu Angel. Mas isso não torna o filme menor. Ele é grande por sua simplicidade; uma simplicidade que não esperamos encontrar em um filme assim.

Patrícia Pillar está ótima, como sempre esteve; mas nada fora do que já estamos acostumados a ver. Mas a sua personagem tem rompantes que nos fazem arrepiar, encher os olhos de emoção. Ela normalmente é uma mulher comum, uma costureira das altas rodas, uma artista sem muita consciência desse fato; mas que de repente incorpora uma mãe poderosa, com uma força invejável, naqueles momentos mais críticos, e diz as palavras certas, no tom certo, demonstrando uma confiança e uma força que todos nós queremos ter naqueles momentos críticos em que somos desafiados.

Daniel de Oliveira continua muito bem, obrigado. Nas cenas de tortura parece que ele está mesmo sentindo aquelas dores, seus gritos atingem nossa alma. Mas achei que as cenas de tortura foram poucas. Não, não sou um sádico. Mas é que alguns filmes brasileiros, principalmente da Globo Filmes (que tem interesses outros), parece que têm receio de serem crus, realistas. Falo disso porque os melhores filmes sobre o holocausto são aqueles que mostram o sadismo em detalhes. Saímos do cinema com nojo desses nazistas filhos de uma puta. Senti falta disso, sair do cinema com nojo desses militares ditadores filhos de uma puta; afinal não houve nada além do esperado.

Luana Piovani. Nunca gostei de suas interpretações. É uma atriz de um papel só. Ela é artificial. Mas devemos sempre dar uma chance. Os críticos, no entanto, já haviam malhado tanto a interpretação dela que já fui meio que buscando defeitos e só encontrei defeitos. Realmente, para interpretar Elke Maravilha teria de ser, no mínimo, uma atriz mais expressiva. Quem viu aquele filme sobre a vida do Garrincha e a interpretação da Thaís Araújo, fazendo Elza Soares, quem viu entende o que estou querendo dizer com “expressividade”.

Não poderia deixar de citar o Caio Junqueira, que nunca ganha um papel principal; mas é um dos melhores atores deste país. Atua desde a infância e nasceu formado. Não sei por que ele não é mais valorizado; talvez porque não tenha o estereótipo de galã; apesar de ser bem bonitinho.

Uma cena que vou levar comigo é quando o personagem Stuart fala do sonho e da realidade; que às vezes a realidade impede a realização dos sonhos. E como isso é real! Num tempo em que vivemos nos enganando todos os dias, alimentando pensamentos positivos para conseguir continuar a viver.

Enfim, Zuzu Angel é um belo filme, merece ser visto. A história emociona.

O que me atrai tanto em um drama é que, depois de ser tocado nas minhas mais profundas emoções, por algum tempo, eu consigo me separar de mim mesmo, deixo de olhar para o meu próprio umbigo e vivo a emoção dos personagens, emoções que eu jamais viveria se não fosse por eles. E durante esse tempo, que dura ainda um pouco depois do final da sessão, uma sensação de que há algo maior que o meu Eu me preenche, e sinto, por alguns momentos, certa paz.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 22 de junho de 2008

Crash

(americano, 2005)

Dramático. Tenso. Angustiante. Forte. Trágico.

Lembra-se daqueles filmes americanos que falavam do forte e violento racismo presente nos anos 1950 e 1960? Negros que não podiam sentar-se nos bancos dos ônibus e outros tipos de absurdos? Não, não se vê isso em Crash.

A princípio parece que Crash, de forma escancarada, vai falar do racismo americano do século XXI. Negros, brancos, latinos, asiáticos, árabes. E realmente fala; mas o elemento humano, independente de sua raça, faz-se presente com uma força incrível.

Em um segundo momento, parece que os americanos respiram o racismo, parece um sentimento natural entre eles, um racismo que existe da mesma forma que o ar que respiramos.

E, então, tudo se confunde, ações e sentimentos se contradizem, a música toca ao fundo, e o homem vai se mostrando em sua melancólica mediocridade.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 15 de junho de 2008

Doutor Jivago

(Doctor Zhivago, americano, 1965)

Se alguém te disse que Doutor Jivago é a história de amor entre Yuri e Lara, ou essa pessoa mentiu ou é muito ingênua. Na verdade, o filme fala o tempo todo sobre o comunismo. Obviamente, pela visão americana dos anos 1960. Já podem imaginar. De qualquer forma, o “inimigo” comunista é retratado de uma forma interessante a partir de nossa visão contemporânea.

Temos no papel de Yuri o lindo Omar Sharif. Fico deprimido ao ver filmes antigos ao constatar que o tempo é impiedoso. Por que a beleza é tão fugaz? A natureza não entende nada de estética. Se dizem que o mundo é uma obra de arte, estão mentindo, a natureza trabalha como um operário alienado, nunca terá a sensibilidade de um artista. E por falar em beleza, temos a feia Geraldine Chaplin, fazendo o papel da Tonya, esposa de Yuri (o doutor Jivago, para quem não sabe). A pobre, sempre sem brilho pelo fato de ser filha de quem é. Se é ou foi talentosa, acho que nunca saberemos.

Depois de três horas e vinte minutos de filme, deu até vontade de tentar ler o romance que tenho aqui, uma edição talvez de 1958, capa dura, 524 páginas, do qual não consegui ainda passar da página 30.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 8 de junho de 2008

Cidade baixa

(brasileiro, 2005)

A história é simples e uma constante no cinema mundial: Dois amigos de infância se apaixonam pela mesma mulher e a amizade é violentamente abalada. Seria mais um repeteco dramático se Cidade baixa não tivesse como cenário a Bahia, se nos papéis principais não estivessem Lázaro Ramos e Wagner Moura, além da iniciante Alice Braga, e se o triângulo amoroso não fosse composto por: uma dançarina (prostituta), um assaltante de farmácia e um lutador de boxe vendido.

Alguns filmes nacionais, Cidade baixa é um deles, trazem uma temática naturalista. O velho determinismo que cria produtos do meio. Impossível ver os personagens tendo uma vida diferente da que têm. É uma realidade que está presente nas periferias brasileiras. Nosso mundo vende sonhos, mas não vende asas. Sexo, sangue, vômito, cigarros, cerveja, droga, palavrões perfeitamente contextualizados, melancolia, desejo, ciúme, instinto. A miséria aproxima o homem do instinto, do animalesco, do selvagem.

Contudo, Cidade baixa não é um filme que vende a miséria; pois a miséria é pano de fundo, está na tela e fora dela. A dramaticidade do filme está no desejo que une os três personagens, no sangue e no gozo e na dor que unem os três personagens.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 20 de abril de 2008

Munique

(Munich, americano, 2005)

Em 1972, durante os jogos olímpicos de Munique, Alemanha, a delegação israelense é tomada refém por terroristas palestinos. Todos os reféns acabam sendo mortos. Diante do fato, a primeira-ministra de Israel decide tomar uma atitude com o intuito de não mostrar sinais de fraqueza diante dos inimigos. É decidido, então, que lutarão com as mesmas armas terroristas. Um grupo de cinco homens, liderados por Avner (Eric Bana) é encarregado de matar onze homens considerados responsáveis pelo atentado de Munique.

Alguns críticos acharam que o diretor (Steven Spielberg) pecou ao não se posicionar. Mas quem ficar atento à interpretação de Eric Bana, que faz o personagem israelense Avner, entenderá que o diretor, como bom artista que é, troca qualquer posicionamento político pelo drama que configura a alma humana; e a alma humana (matéria-prima dos atores) independe de nacionalidade, política ou credo. Realmente, o diretor não diz para você o que pensar. Ele joga diante dos seus olhos uma realidade que você pode até ignorar; mas, se parar para pensar, ficará angustiado diante da impossibilidade de uma solução racional.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Juno

(americano, 2007)

Simples; mas não é previsível. De forma alguma é moralista. Parece que o Oscar, às vezes, é dado com justiça. Afinal, se Juno merece um prêmio, é de melhor roteiro (escrito pela ex-stripper Diablo Cody). Um roteiro invejável, sem artifícios. Pensei, mal informado, que era um filme feito para o público adolescente. Que nada! A grande maioria das pessoas que apreciou aquela “maravilha” do American pie jamais seria capaz de dar o devido valor a Juno.

    Warley Matias de Souza.

Eu indico

sexta-feira, 28 de março de 2008

Leões e cordeiros

(Lions for lambs, americano, 2007)

Comecei a ver Leões e cordeiros num dia ruim, num momento ruim. Vi os trinta primeiros minutos e decidi que aquela história era para americano ver, pois questionava a realidade política deles. No dia seguinte, mais sereno, resolvi continuar a ver o filme. E soube que ele falava também de mim, não porque eu sou, como todos nós, influenciado, sem opção, pela política americana; mas porque o filme, definitivamente, fala do quanto somos responsáveis por tudo o que acontece ao nosso redor, por tudo que acontece no mundo. E a pergunta se faz: “Vamos continuar fingindo que não é problema nosso?”. Incrivelmente, numa discussão acadêmica dias atrás, eu havia chegado à conclusão de que sou um ignorante quando o assunto é a política brasileira; eu e, muito provavelmente, você — a gente descobre isso quando conversa com gente que estuda política. E comecei a pensar como seria possível saber mais e ser mais participativo. E, depois de pensar e pensar, voltei à minha apatia.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

sexta-feira, 21 de março de 2008

Corra Lola corra

(Lola rennt, alemão, 1998)

Borges iria adorar ver esse filme (se ele não fosse cego — piadinha sem graça).

Quem assistiu ao americano Efeito borboleta, posterior, terá uma pequena noção da temática de Corra Lola corra. Os filmes, obviamente, possuem estéticas diferentes, enredos diferentes, são diferentes. Corra Lola corra faz seu coração acelerar, turva o seu pensamento, tenta fazer com que você não pense... não pense... Uma grande diferença desse filme para Efeito borboleta é que, em Corra Lola corra, há um objetivo. A personagem corre para alcançar um objetivo; o caminho pode mudar, mas o objetivo é o mesmo. Em Efeito borboleta, mudavam-se os caminhos e também os objetivos.

Corra Lola corra pode ser um videogame e até um videoclipe; mas, acima de tudo, é cinema! Diferente de Efeito borboleta, que te induz a teorizar, Corra Lola corra desperta sensações, isentando-nos de racionalizar.

Os atores do filme estão fabulosos!

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 2 de março de 2008

Irmãs gêmeas

(De tweeling, holandês, 2002)

Duas irmãs gêmeas não idênticas são separadas, em 1926, após a morte do pai. Uma é criada na Holanda, num ambiente saudável e rico. A outra é criada na Alemanha, em meio à pobreza e à violência.

O ódio aos judeus, estimulado pela propaganda nazista, é semelhante ao ódio de pobres brasileiros por aqueles que podem comprar um tênis de marca. Parece banal, esse é o problema. O holocausto está aí, e talvez a bomba já tenha sido detonada. A tendência do homem é massacrar o seu inimigo. E o inimigo pode ser aquele que detém algum tipo de poder.

Na guerra, como na vida, não há bandidos e nem mocinhos; há apenas vítimas das circunstâncias. Jamais poderei entender sua dor, e você jamais poderá entender a minha. Imagine que você houvesse vivido a minha vida e eu a sua. Quem seríamos então? Cada vida é um drama individual, cada vida é incomparável. O respeito pela vida por si só talvez não seja tão nobre quanto o respeito pela vida individual alheia.

O homem é uma criação mutilada, a obra mais imperfeita já produzida pelo artista divinizado pela ignorância.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O jardineiro fiel

(The constant gardener, anglo-americano, 2005)

Quando penso em falar desse filme, vêm-me imagens e ideias e comentários fragmentados. Ralph Fiennes, ator acima de qualquer julgamento, fantástico. A “beleza” da miséria do Quênia somente possível de ser captada pelas lentes do cinema. A cor forte e bela. Fernando Meirelles, diretor do filme, diretor também de Cidade de Deus. Baseado em um romance de John le Carré. Uma história de amor sem a banalidade vazia do “Eu te amo”. A cena em que os personagens do Ralph Fiennes e da Rachel Weisz fazem amor pela primeira vez é de uma sensibilidade e beleza ímpares. A sensação de que o perigo ronda, de que se está sendo vigiado, angustia-nos durante grande parte do filme. Há uma cena com um pequeno teatro. No making of, podemos ver todo o espetáculo, é linda a forma de os quenianos atuarem, falam como se cantassem.

Um diplomata inglês (vivido, esplendidamente, por Ralph Fiennes) casa-se com uma idealista interpretada por Rachel Weisz. Ela descobre uma conspiração envolvendo companhias de medicamentos, que usam a África, particularmente o Quênia, como laboratório de testes. Seu marido, o diplomata, enquanto cuida do seu jardim, ignora a investigação arriscada feita pela esposa, que não quer envolvê-lo. Mas, depois da morte dela, o diplomata vê-se obrigado, pelo sentimento, a envolver-se. E o envolvimento vai além...

É um filme fantástico. Não só por ter um brasileiro na direção... mas também por isso.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Onde os fracos não têm vez

(No country for old men, americano, 2007)

Paisagem árida. Se fosse nos anos 1950, ela seria mais cenográfica, menos natural. John Wayne seria o xerife durão e infalível que, no final, mataria o bandido. Mas não estamos nos anos 1950, o xerife é Tommy Lee Jones e não tem mais a firmeza dos xerifes de antigamente, carrega a melancolia e a incompreensão de nossos tempos. E Javier Bardem está longe do bandido sujo, que cospe antes de sacar à traição. Ele carrega a crueldade objetiva e doentia de nossos tempos. Mocinhos e bandidos? Isso não existe mais faz tempo! Existe, sim, a incerteza.

Os tiros dão medo, se ouvidos dentro da sala de cinema. E Tommy Lee Jones, ator de quem nunca gostei, nesse filme, convence, dá até para sentir certo carinho pelo seu personagem.

Um filme de silêncios, dá para ouvir o barulho dos sacos de pipoca até do público mais discreto e civilizado.

Digamos que os irmãos Coen são Tarantinos intelectualizados.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Horror em Amityville

(The Amityville horror, americano, 2005)

Esse filme é um remaker do original de 1979. Eu vi o original quando eu era criança. Naquela época, fiquei com muito medo! Mas eu não sabia que era baseado em fatos reais. Mas, naquela época, meu conceito de realidade era outro; nem precisavam me dizer que aquilo era “real”.

Confesso que assisti a essa segunda versão apenas por curiosidade, pelo fato de eles divulgarem que era baseado em fatos reais. Ou seja, comecei a assistir com o objetivo de ver um péssimo filme. Mas o filme me envolveu. Meu coração acelerou. Um filme bem feito. Não é conclusão minha, o filme, pelo menos a versão de 1979, já é um clássico do terror. Assista numa madrugada chuvosa e fria, com uma companhia do lado (que não seja uma companhia sobrenatural). E não espere dormir logo em seguida, vai demorar um pouco...

É interessante mencionar que várias vezes o ator principal mostra o seu belo abdômen. Não estou reclamando, muito pelo contrário, foi ótima a visão. Mas ainda não entendi o porquê. Quem sabe para dar um toque animalesco ao personagem. É bem provável que seja isso.

O making of tem de ser visto.

No making of: Uma parapsicóloga disse que o demônio (o mal) sobrevive por causa dos céticos. Discordo dela, a crença no mal é o que o torna real.

No mais, aquela casa assustadora, com dois “olhos” incômodos, é uma das casas mal-assombradas mais famosas dos Estados Unidos. O mistério atrai muitos curiosos.

Warley Matias de Souza.

Eu indico

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Dreamgirls

(americano, 2006)

Quando o filme acabou, tive vontade de gritar, em agudos de quebrar cristais: “Diana Ross, your bitch without personality!”. Em bom português, para compensar meu péssimo inglês: “Diana Ross, sua vaca sem personalidade!”. E desculpem-me os fãs ardorosos; mas é assim que nos é retratada a vocalista do The dreams. Uma girl negra americana sem personalidade, o que, obviamente, reflete em sua voz.

A verdadeira artista do grupo é, covardemente, substituída, inclusive em questões amorosas, pela “amiga”, ou seja, Diana Ross, que no filme tem um nome fictício e é interpretada por Beyoncé. A injustiçada é arrogante, apesar de ser a melhor. E a mocinha não tem personalidade, deixa que façam as maldades por ela, tão inocente, não sabia de nada. E não poderia faltar o vilão da história, o empresário, o culpado tanto pelas maldades que ninguém quer assumir quanto pelo sucesso das “dreams”.

Destaque para a interpretação de Eddie Murphy, em seu primeiro papel não cômico, que eu saiba. Ele devia continuar nesse caminho e abandonar suas piadas escrotas. E se não o fizer, pelo menos mostrou ao mundo que sabe fazer algo diferente, apesar de ser mercenário demais para continuar com isso.

Se a Diana Ross concordou com a produção desse filme, ou ela é muito burra... ou ela é muito corajosa: sinal de que amadureceu com o tempo.

Warley Matias de Souza.